Pensamento

"Onde quer que o homem vá , verá somente a beleza que levar dentro do seu coração" . Ralph W Emerson
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quinta-feira, 8 de julho de 2010

De Ilusão Se Vive e Se Morre

Diante do firmamento, a gente procura sempre um fim, seja do caminho, do sufoco, da ansiedade, insegurança. A gente está sempre em busca de algo, de alguma conquista, de algum sonho, de  um desejo ardente, algo que nos dê reconhecimento, segurança, dinheiro, fama, algum elixir eficaz que nos faça eternos jovens, imaculados de qualquer doença terminal, isentas de celulite, de espinhas. O homem é um ser em processo de crescimento mesmo, só a eterna ansiedade em sobreviver mostra claramente que viver é meio de poder ser melhor. A auto-destruição é apenas uma negação da capacitação para a luta,é preciso coragem para dizer não à vida.
Despertar todo dia  e seguir para frente a gente faz no condicional, talvez para que esse horizonte se estenda para lá longe, é preciso sonhar, é preciso se projetar mais adiante, visualizar. Então surgem  nossas fantasias possíveis e impossíveis, é nesse mar de Netuno que podemos criar um outro mundo, diferente dessa realidade, nem sempre de braços abertos, receptiva às nossas necessidades. Sobreviemos à custa de nossos sonhos, se não podemos ser heróis, corremos atrás deles, de nossos ídolos, de nossos santos, de nossos deuses. Precisamos acreditar em milagres, no poder oculto que possa nos salvar dos pecados, somos flagelados nesse mundo, precisamos de correntes que nos unam, de elos invisíveis que nos protejam, de energias que nos guiem para o bem.
Assim continuamos com a dita esperança de superar as perdas, a angústia das carências, os que menos tem lucram muito mais como sonho, são amantes fervorosos, se movem pelo sonho tal qual criança, tudo fica mais bonito, o mundo cresce de tamanho e ele é mais um a torcer  pela vitória do herói. Ali, naquele momento, ele é parte de uma nação de fanáticos,ele esquece da realidade, se joga no sonho e é feliz,mesmo que por alguns minutos, ele enche sua taça de amor e se embriaga de felicidade.
Às vezes deliramos de paixão, ela nos cega, ou será nós, que para nos permitirmos ser mais, ousar sonhar, distorcemos as reais possibilidades e buscamos os impossíveis. A falta de percepção da nossa real capacidade, nossa baixa auto-estima tira de nós algo fundamental, nossa auto-confiança, sem ela tudo se parece enorme, monstruoso, e mergulhamos fundo nesses pesadelos, seja para nos narcotizar e diluir de vez esse filão masoquista de sofredor , seja pela busca do ápice da loucura, quem sabe assim nos transformemos em "anjos" e larguemos nossos penosos fardos. de lutar e vencer os obstáculos
O tombo é enorme lá desde o desfiladeiro, quanto maior for a altura que você sobe no sonho, menos oxigênio terá para discernir sonho de realidade. O impossível já é um trato que se faz com a negação, dizemos não a nós mesmos, somos cúmplices numa auto-sabotagem, jogamos para perder, é um desafio suicida, daqueles que não acreditam em si mesmos. O herói, o ídolo nada mais é do que projeções de nós mesmos a fazer os milagres que não somos capazes, mas no caminho há inúmeras oportunidades de viver o sonho sonhado, basta acreditar e buscar.Uns sonhos vão desaguar na praia, lágrimas lavarão os restos mortais da ilusão e,novamente o sol brilhará no horizonte, dourado, firme e seremos capazes de começar de novo.
Morrer é preciso para nascer de novo. Talvez Netuno seja exatamente esse caminho de ser mais além da matéria, sair do corpo, perceber esse potencial de auto-transformação. A ilusão é meio de transpor o limiar, então dependerá somente de cada um acreditar em si, na sua capacidade criativa,na sua centelha divina a lhe inspirar e ser canal receptivo do divino dentro de si.

sábado, 19 de setembro de 2009

O Silêncio da Montanha


Cá estou eu enroscada  ao meu chale de lã, lembrança de minha avó materna, de quem herdei as habilidades artesanais, ela gostava de tecer em crochet, e quando chega o cair da tarde nessa montanha, bate a friagem da ausência do sol, que já vai desaparecendo lá no horizonte. A brisa fria nessa mar de vale descampado levanta meus cabelos  a me puxar em direção ao alto, vou subindo a montanha pelo caminho das ovelhas bem devagar, assim meu coração se une a uma respiração profunda desse cheiro de terra, minha terra, que me impregna os pulmõese me sustenta a alma de prazer.

Raras são as árvores por aqui, lá embaixo vejo um punhado de pinheiros numa das fazendas, mas minhas mãos ainda estão impregnadas da colheita das azeitonas verdes, que agora eu trazia na cesta de vime,  cheiravam ainda nas minhas narinas e essa mistura me deixava com saudades, saudades de tempos que não vivi, de caminhos que não percorri, mas de um imenso mar de emoções que carrego aqui, dentro do meu peito, à espera de que, em algum momento, eu ouça de novo a sua voz, no meu ouvido direito, sinta suas mãos a me abraçar pela cintura, colando teu corpo às minhas costas, eu me encaixando tão igual, como se tivesse sido feita para ocupar esse espaço.

Por dias e dias eu venho ao encontro desse silêncio impregnado de história, do cheiro da tua terra mãe, me deixo rolar na grama alta do  como se pudesse esperar que as folhas secas do outono me cobrissem como um manto vermelho-dourado da morte Eu ali quieta me manteria aquecida e sonhando acordada. Ouço latidos a distância,  meus 2 amores brincando , saltitantes, latem quando alguém passa na estrada. Um dia será você a chegar no portão, me olhar com aquele jeito de uma boca tímida e olhos a me dizer o quanto me deseja, eu sorrio e te recebo num abraço por inteiro.

Outro dia me lembrava  de sonhos que tive contigo, da vila, do portão de ferro com aquele vaso enorme de gerânios na entrada, ali você vivia e quando eu passava, te reconhecia. Sempre foi algo entre nós não declarado, uma doce intimidade, uma cumplicidade  e uma distância enorme a te fazer quase impalpável, salvo eu ter te rosto e voz em minha companhia. O destino por vezes é um deserto e é preciso tirar água de pedra, acreditar no impossível, perceber o improvável e saber passar por todas as tempestades de areia e eu assim mesmo, sobreviva à tua espera, espera eterna, talvez nunca seja acalentada com teu corpo junto ao meu, mas as lembranças são vivas, como já vividas.

O sol se deita e no meu despertar sinto falta de você, dessa individualidade orgulhosa, que te faz negar ajuda, que impõe barreiras de um silêncio eterno. Benditas saudades, bendito passado que trago comigo e me farta  em parte da tua ausência. Não sei como te fiz ou o que te fiz, onde minha percepção da tua verdade te expôs demais frágil diante de meus olhos. Até quando me terás como inimiga, só porque sou tão tua conhecida e tu tão meu . Que tua loucura um dia se abrande e te compadeces de mim. O céu negro salpica de estrelas de esperança o meu ser, volto pra casa mais uma vez em fria com o orvalho da noite, abraçada nessa imensa escuridão que é minha vida sem você.