Na busca de respostas eu fui atrás do vento que cruzava minha fronte e sussurrava segredos aos meus ouvidos, muitas promessas levadas pelo vento e ecadas entre as dunas. A solidão a qual me coloquei me trouxe a paz tão ansiada a meu coração. Uma liberdade enorme me invadiu diante daquele infinito espaço à minha frente, sem muros a me impedir minha caminhada. Dona de mim, do meu tempo, da minha independência, me deparo com minha auto-suficiência, a glória por tantas vezes almejada, quando da brutal dependência hierárquica e da minha própria imaturidade e ignorância. Por vezes o "se retirar" não é uma busca interior através do meu próprio silêncio, e sim uma fuga da opressão, de uma imposição por submissão que vai queimando meu fogo interno, e vai me curvando pela degradação do olhar sobre o impossível. A penitência pode ser o recolhimento, o desapego forçado ela terra seca quase nunca regada de amor e atenção, o inverno emocional onde congelo meu sentir, me distancio da dor, como se assim pudesse torná-la inexistente.
El "frio en el alma" me suena como la música de mismo nombre, un antiguo bolero, uma história de um fim de relacionamento, uma despedida forçada, um fim de ciclo na travessia e nem sempre sabemos aceitar com serenidade, é um aprendizado que só o tempo ensina, o esperar pela morte, o conviver com o vazio, a aridez que nos esmaga, como se nos faltasse o ar que nos sustenta a vida. A carta do Eremita no Tarot, simbolicamente representa muito dessa solidão forçada, seja por abandono de outros, ou o abandono de si mesmo, a resistência que possuímos diante das perdas, o endurecimento do coração pelo desgosto, a dura convivência com as limitações da velhice, de uma separação, da uma morte de um companheiro. Nossa próprias articulações se envergando diante de uma comodidade quase auto-privação da vida lá fora, a inércia da não admissão da necessidade de um SEMPRE CAMINHAR PARA FRENTE não existe regressão, existe uma busca eterna pela vida a cada fase com suas próprias exigências e, mesmo quase no fim do caminho, existe um novo recomeçar, mesmo que mais vagarosos os passos, o alongar é preciso, manter sempre a flexibilidade, o sangue correndo quente nas veias a fomentar vida ao corpo e à mente.
Ninha força vem do perseverar, da confiança que deposito na minha determinação de cavar meu caminho com o suor do meu rosto, com meu trabalho, que me faz digno de que sou, da minha origem lá distante no passado. mesmo que invariavelmente eu seja difícil de ser convencida, sou mais difícil ainda de me render à morte. Há sempre um novo renascer, uma luz que me guia na intuição, minha bússola é meu coração batendo apressado diante da escalada íngreme. Por vezes as lágrimas me lavam minha face, recordações de minhas perdas, do vigor da juventude que hoje se faz presente nas minhas rugas e cabelos brancos. a vontade de 'não precisar" é imensa, cultos dos mais novos minha angústia com as doenças, o melindre de ser esquecida. Muitas vezes sou um dever e tenho deveres ainda que me sinta n fim da trilha, mas em algum momento do nada surge uma esperança, meus olhos míopes ganham um brilho especial quando encontro uma flor no deserto.
Os Florais do Deserto, os Florais Australianos possuem espécies de delicadas flores a brotar de uma terra seca, por entre pedras sob um sol cáustico, mas a semente vinga ante a devastação, se ergue e brota em flor, como uma rainha. O quanto precisamos de ir fundo do poço em busca de água, para só então compreendermos nossa força interior em suportar muito mais do que acreditamos. As faltas nos dão uma oportunidade de quebrarmos nosso escudo de orgulho e preconceito nos rendemos fraquejados, ajoelhamos em oração a rogar por clemência, nos colocamos em penitência forçosamente, sofremos numa luta árdua pelo controle, um pavor pela mudança e a negação do novo. Nossa montanha ganhará fendas profundas e lá por entre as rochas, nasce um sinal de vida, iniciando um novo caminho onde é preciso humildade diante do valor maior de estar vivo.
As ondas no mar de areia nos mostram os sons do deserto, o natural ritmo que se move ao sabor dos ventos, criando e recriando caminhos, num eterno ciclo, onde o homem marcha como um nômade em busca de um oásis. Ah... eu bem que viajo por esse deserto, me deito no manto de areia, ergo meus olhos e sou acariciada pelas milhares de estrelas, sonho acordada com minha pequenhez, como um grão de areia, não estou só, sou começo, meio e fim, elo entre passado e futuro, um eterno aprendiz a cada reencarnação.
Sinta a imensidão da vida, Se admire com a pequenhez das coisas, Sorria do vento te levando por aí, Se encante com a natureza a seus pés, Voe passarinho!
Pensamento
"Onde quer que o homem vá , verá somente a beleza que levar dentro do seu coração" . Ralph W Emerson
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quinta-feira, 5 de maio de 2011
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Os Excluídos e Sobreviventes
Dias atrás eu me vi mais uma vez tocada pela tragédia do Haiti, talvez pela grandiosidade do terremoto, e mesmo que a poucos quilômetros daqui, as águas rolaram morro abaixo e despedaçaram-se muitos lares. Pedras rolaram quebrando o clima de festa. No sul também houveram enchentes, em São Paulo e no interior. Netuno anda precisando lavar a terra e, eu com minha Vênus pisciana, adoro chuva e sempre me preocupa com o quanto vai levar de terra na grande correnteza. Mas, passei o fim de semana querendo dizer do que sentia, mas difícil expressar tanta coisa junto que me sensibilizava, até que recebo um e-mail de um amigo, que repassava o desabafo de sua amiga e colega de pós-doutorado e, tinha encontrado o que me mobilizava realmente.
Katia dizia... "Eu tô que não consigo sair do Haiti. Tenho rezado, chorado, cantado, registrado tudo que me assalta nesse horror… Igual à época de Katrina… eu me vejo lá, aqueles sou eu… Eu queria muito não pensar assim, mas não adianta porque eu SINTO assim… num tem jeito."
Dentro de mim estavam todos aqueles desesperados, todo ser humano que em algum momento lhe tiram tudo, lhe deixam a vida e cada um tem que seguir adiante, diante das perdas afetivas, das catástrofes que a natureza traz pra varrer o mundo da gente. Jamais nessa vida vivi algo do tipo, tive perdas dolorosas, mas sei que minha alma já perdeu muito.
Dentro de mim existem uma alma de escravo de ontem e de hoje, o abuso físico, o castigo, o valor de um ser humano tal qual de um animal. Ali o poder do dinheiro comprava serviçais, hoje compra votos, projetos, apoio político, licenças, terras, honra, subimos na escala de valores, só não tem mais castigo.
Da mesma forma o povo indígena foi expulso de suas terras pela barbárie do homem colonizador, do missionário. Vivemos anos e anos vendo filmes de Fortes Apaches cantando a vitória dos americanos, ingleses e franceses, invadindo terras e matando toda espécie de ser humano, como se não fossem eles, os pé no chão, donos da terra.
Muitos foram lutar pelo que acreditavam, expatriados, perseguidos, vagavam pelo mundo no exílio. Outros foram foco de violência brutal de mentes medíocres que buscavam a pureza da raça e envenenavam, tacavam fogo, afogavam, torturavam judeus, homossexuais, ciganos, feiticeiras, prostitutas. Ainda hoje há fogo na língua do homem intelectualizado, jorrando veneno e ácido, criando emboscada nas ruas, na execução de casais gays, ainda ferve nas pistolas em mãos de milicianos a fúria do preconceito ordinário que cobra pra matar.Candido Portinari retrata o retirante, outro ser que a seca tirou dele a seiva da vida, e ele se arrasta desidratado à procura de uma fonte de sobrevivência no sertão dos coronéis a explorar o homem na lavoura de sol a sol. Até hoje as políticas públicas não irrigam a terra brazillis. Lampião se foi, sobrou Padre Cícero e as várias prisões de trabalho escravo e infantil em meio a tapioca e as cinzas das carvoarias.
Sobram ilhas de terra devastada pelo interior da Amazônia, o fogo mais uma vez cresce lambendo o mato seco para criar vales de céu aberto, sem sombras de árvores. Cada vez mais a razão come a carne quente do animal caçado e abatido a pedradas, como no tempo da pedra lascada, inconsciente coletivo dos Flinstons.
Todos num só, um homem de pé no chão, pobre, ignorante, atado à sua terra, seu mundo cresce do chão, seus deuses pedem rituais, dança, música. Talvez seja cada um destes a origem da força vital da regeneração, esse espírito nunca morre, ele é perene, seja pela história, seja pelo exemplo, ele sobrevive sempre a todas as catástrofes.
Aqui cabe o texto de Danticat.
“Somos feias, mas estamos aqui”Eu hoje tenho trinta e quatro anos e já vou vindo mais de dois terços da minha existência nos Estados Unidos. Minhas memórias mais vivas da infância no Haiti envolvem apagões repentinos, os "blakawouts", como dizíamos. Durante os blecautes, eu não tinha como ler, estudar, ou assistir televisão, então eu me sentava perto de uma vela ou de uma lamparina e ouvia histórias contadas pelos mais velhos da casa.
Essas histórias e memórias reavivam umas questões que não me saem da cabeça. Qual é o meu lugar agora nisso tudo? Qual era o lugar de minha avó? Qual é o legado das filhas de Anacaona, das filhas do Haiti?
A pequena Anacaona possui um rosto que não traz mais qualquer traço de sangue indígena, mas sua história ecoa alguns dos primeiros sanguinários incidentes em uma terra que os tem assistido excessivamente.
-- Como vai você hoje, irmã?
-- Eu sou feia, mas eu estou aqui.
Hoje em dia, muitas das minhas irmãs se cumprimentam bem distante das terras onde aprenderam a falar em línguas estranhas. Muitas conseguiram chegar a outras partes, depois de viajarem milhas sem fim em alto mar, em precárias embarcações que quase lhes tiraram a vida. Em 29 de outubro de 2002, uma mulher, debilitada pela longa jornada no oceano, ao avistar terra firme teria se atirado na maré baixa. Outras pessoas a seguiram, inclusive meninas e meninos pequenos que preferiram correr o risco de quebrarem um braço ou uma perna a se separarem de seus pais. Estes são apenas alguns dos milhares que chegam às costas estadunidenses ao longo do ano, apenas para serem cercados, algemados, levados presos, e quase sempre devolvidos para o lugar de onde vieram. Há onze anos, uma mulher pulou no mar quando descobriu que sua bebezinha tinha morrido em seus braços em uma jornada que ela tinha esperanças que as levasse de encontro a um futuro melhor. Mãe e filha foram para o fundo de um oceano que já contém milhões de almas da middle passage, o holocausto do comércio de escravos. O sacrifício da mulher levou muitos de nós às lágrimas, mesmo que o acontecido nos fizesse lembrar de um monte de sacrifícios outros, feitos no passado, em nome de todos nós, para que pudéssemos estar aqui.
Tradução Katia Santos
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